quinta-feira, 21 de junho de 2012

NOSSOS UMBIGOS DIGITAIS

fonte: http://sociotramas.wordpress.com/tag/quero-ter-um-milhao-de-amigos/

“Quero ter um milhão de amigos” tornou-se uma ilusão bem mais sofisticada do que a música de Roberto Carlos e Erasmo Carlos originalmente propunha com uma descompromissada hipérbole. Essa ilusão — digitalmente forjada por tecnologias que redefinem e se misturam às relações sociais — se manifesta com frequência por meio de “amizades” fantasmáticas entre pixels que representam imagens e outros signos; os quais supostamente representam pessoas, que supostamente representam quem e o que realmente são.
Claro que há casos de amizades que começam “do zero”, desde essas etéreas ligações entre… Zeros e uns. Também há amizades que partem de vias mais tradicionais, presenciais, e ganham suas extensões ou versões digitalizadas. No entanto, algo bem mais preocupante é a tendência a valorizar, acima de tudo, o número de seguidores, de “Curtir”, de “retuítes” e de “amigos” que dificilmente merecem o título. Essencialmente, esta é, ainda, uma discussão e um confronto clássico, entre qualidade e quantidade — de laços sociais e emocionais.
Difícil não conhecer pessoas que fazem questão de compartilhar pequenas e triviais coisas que lhes acontecem regularmente, via Facebook ou Twitter, para centenas (ou milhares) de “amigos”! É como se seu valor na sociedade passasse a ser, de maneira crescente, passível de medição precisa por tais números. Aliás, os vários graus desse comportamento ensimesmado no Facebook e os excessos no uso do site já podem ser mensurados por um teste, que também ajuda a detectar traços desse novo tipo de narcisismo (digital). Enquanto isso, apóslançar suas ações na bolsa de valores de empresas de tecnologia (Nasdaq) em maio deste ano, o Facebook continua empilhando novidades — e mídias — para incrementar a experiência de uso do site: já está em testes uma ferramenta que permitirá aos usuários compartilhar e publicar músicas em sua linha do tempo. Teremos aí mais um esforço em convergência midiática e mais uma maneira de manter o usuário preso ao Facebook (como se, para muitos, sequer fosse necessário).
Se, de um lado, há aqueles que publicam a foto do sanduíche que comeram no almoço com meia dúzia de palavras que se assemelham ao idioma nativo sem nenhuma dificuldade — e com enorme e admirável rapidez! — também há os que sofrem do mal oposto: paralisados na frente do computador, esperam as palavras brotarem… E nada! Bem, seus problemas acabaram. O aplicativo “Write or die“, fatalista desde o nome, institui o fim do “bloqueio de escritor”: com ele ativado, ou você escreve algo em 45 segundos, ou o aplicativo psicopata apaga seus esforços anteriores.
Se as configurações de privacidade falharem, quem sabe, daqui a um tempo, criam um aplicativo para bloquear aqueles que escrevem sobre o que comem, vestem e fazem como se fossem o centro do universo dos outros… Narcisos e narcisas que trocam o espelho d’água pela tela do monitor, tremei!
Por Marcelo Salgado

Nenhum comentário:

Postar um comentário