terça-feira, 5 de março de 2013

Paulo Kliass: Quem se esqueceu do software livre?

Fonte:  http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=206835&id_secao=10

3 de Março de 2013 - 8h45

As propostas de grupos como o Wikileaks e as ações mais recentes de Julian Assange, a partir do asilo concedido na Embaixada do Equador em Londres, recolocam no centro do debate político internacional questões essenciais que relacionam economia, poder e informática, nestes tempos de mudanças profundas nos padrões tecnológicos e culturais da sociedade contemporânea. A era da emergência das chamadas tecnologias da informação e comunicação (TICs).


Por Paulo Kliass*


No Brasil, o movimento pela democratização das condições de “ciência, tecnologia e inovação” encontra um espaço importante no movimento para disseminação do software livre. Afinal, convenhamos que é mesmo um absurdo ficarmos, todos nós, reféns das vontades e dos interesses de um punhado de poderosas mega-empresas da tecnologia virtual. É o caso da Microsoft e similares, que ganham fortunas apenas com os direitos autorais e de propriedade de seus programas, os chamados produtos software e aplicativos. Isso sem contar o enorme faturamento obtido também com a produção de máquinas e equipamentos, os produtos hardware. Usam e abusam de sua imensa influência para impedir o surgimento de outros caminhos. Escondem a 7 chaves os segredos de sua linguagem e de seus códigos, as fontes de seu poder no mercado e na sociedade.

Independência frente aos grandes grupos

Em razão desse tipo de constrangimento, é crescente o movimento de constituição de alternativas que não dependam desse tipo de amarração jurídica e financeira aos grandes grupos. Por todos os continentes são constituídos, a todo momento, grupos formais e comunidades informais de pesquisadores, profissionais e demais interessados, cujo objetivo é criar e oferecer, para toda a sociedade, o livre acesso aos mesmos tipos de programas de informática sem a necessidade de remunerar monetariamente direitos autorais ou de propriedade. São os chamados “free software”. Pra além do não pagamento, a idéia de “free” deve ser associada à liberdade para os usuários dominarem e abrirem a “caixa preta” dos sistemas. Com isso, os mesmos poderiam ser aperfeiçoados e reproduzidos de forma generalizada. O objetivo maior sendo a democratização do acesso e do uso dos programas.

No entanto, para que essa alternativa se viabilize e seja aceita de forma ampla, dentre os inúmeros universos de usuários existentes, é essencial que tais iniciativas contem com o apoio do Estado, por meio da formulação e implementação de políticas públicas para o setor. Afinal, as medidas estratégicas visando a universalização da inclusão digital deveriam incorporar a noção implícita de que o direito ao acesso ao mundo virtual é condição fundamental do exercício pleno da cidadania.

Apoio do Estado e políticas públicas

O apoio da Administração Pública pode vir sob diversas formas. A primeira delas é por meio de políticas de incentivo e financiamento ao desenvolvimento de software livre, tanto nas universidades e nos centros de pesquisa, quanto nos grupos informais e comunidades de ativistas. Com isso, contribuindo para criar massa crítica e para tornar permanente a formação de profissionais com esse perfil. Em segundo lugar, o Estado pode atuar de forma mais incisiva ao estabelecer que suas necessidades e solicitações de produtos e serviços de informática sejam direcionadas para o software livre. Com isso, ficaria assegurada uma demanda significativa para esse tipo de alternativa de programas e os orçamentos da União, dos estados e dos municípios deixariam de ser onerados pelos encargos com pagamento de direitos às grandes empresas de TICs. Em terceiro lugar, o Estado deve constituir fundos de financiamento específicos para o desenvolvimento desse tipo de programa, com o objetivo de disseminar sua utilização e oferecer condições de pesquisa e empreendedorismo para todos que desejem atuar com esse tipo de projeto. Finalmente, cabe aos órgãos governamentais exercer de forma mais incisiva seu papel de regulamentador e fiscalizador das condições de concorrência no mercado, para evitar as conhecidas práticas sob a forma de cartel ou abuso de poder econômico.

Ascensão e queda no governo Lula

Como se pode perceber a tarefa é árdua e as oportunidades políticas não podem ser desperdiçadas. Assim, o processo da vitória de Lula nas eleições presidenciais e o início de seu mandato em 2003 foram vistos pelas entidades, grupos e indivíduos que atuavam na área como o grande momento para colocar o processo em marcha e transformar o sonho em realidade. O lema generalizado era: “Sim, é possível!”. Durante os primeiros anos de governo houve até mesmo um esboço de incentivo à ampliação do uso do software livre e de sua propagação como política pública federal. Diversos grupos de trabalho foram constituídos para implementação de medidas em áreas como: i) inclusão e acesso digitais; ii) aprofundamento da estratégia do governo eletrônico; e iii) universalização da produção e acesso ao software livre, dentro e fora dos órgãos governamentais.

Porém, a força das empresas do setor não esperou muito para se manifestar. E, pouco a pouco, os poderosos das TICs foram reconquistando o terreno, articulando junto a políticos influentes no Executivo e reforçando seu “lobby” junto ao Legislativo. O objetivo central era minar, ainda no nascedouro, essa chamada “aventura irresponsável” do software livre. Apesar de perder força no interior do governo, a iniciativa ainda se mantinha acesa na esfera de poder da Presidência da República. Tanto que o próprio Lula assinou, em 2005, a apresentação de uma importante diretiva para que o software livre fosse adotado como regra para o uso das políticas de informática no interior da Administração Pública.

O documento “Guia Livre: Referência de Migração para Software Livre do Governo Federal” estabelece uma estratégia para completar um processo que teve início logo no início do governo: romper a dependência tecnológica e financeira em relação aos grandes grupos. O texto assinado pelo Presidente não poderia ser mais claro a respeito de um engajamento com tal opção de política pública:

“Nos últimos três anos, implementamos uma forte política de independência tecnológica, de fortalecimento da pesquisa em computação de alto desempenho, de inclusão digital e de adoção do software livre. Elementos que compõem uma política industrial e uma estratégia de desenvolvimento nacional para esse setor.”

O texto de Lula refletia, com toda a certeza, o pensamento e a vontade da maioria dos integrantes de sua equipe de governo a respeito do assunto até o ano de 2005. O software livre era encarado como política pública e merecia o tratamento de prioridade. Vejamos outro trecho carregado de recados e significados:

“Quero agradecer a todos os que defendem o software livre e lutam pelo aprofundamento e ampliação dos direitos de cidadania em todo o mundo. As potencialidades e os desafios das novas tecnologias da informação têm cada vez mais importância para o efetivo exercício desses direitos. Em nosso ponto de vista, o acesso a esses avanços tecnológicos deve ser direito de todos e não privilégio de poucos. Por isso, o governo federal tem intensificado o diálogo democrático com a sociedade e tratado o software livre e a inclusão digital como política pública prioritária. Entre os resultados desse diálogo estão programas importantes em curso no País.” (grifo nosso)

Apesar dessa diretriz inequívoca, a questão do software livre foi, pouco a pouco, perdendo espaço na pauta de governo. O jogo de pressão das grandes empresas terminou por vencer a disputa, pois os dirigentes políticos não tiveram a coragem necessária para levar à frente esse importante projeto. O roteiro foi muito semelhante ao do que ocorreu com a submissão aos interesses dos banqueiros e do financismo, aos interesses das empreiteiras e das construtoras, aos interesses dos representantes do agronegócio e do latifúndio, aos interesses das empresas de telecomunicações e aos interesses dos grandes meios de comunicação. Neste caso, em particular, o governo terminou cedendo aos interesses dos grandes grupos de TICs. Tudo em nome da suposta necessidade de governabilidade. Tudo plenamente justificado pela busca de um modelo de realismo e pragmatismo políticos, que sempre termina por distorcer o sentido primeiro da conquista do poder: a transformação social.

Urgência em retomar o tema e o potencial do Brasil

O Brasil tem uma história recente que confirma seu potencial para alavancar um setor de computação competente e eficaz. Isso vem desde a antiga política nacional de informática, quando se pretendia desenvolver um setor nacional, com incentivos fiscais e estímulo governamental. Apesar dos problemas apresentados por tal estratégia, o fato é que o ingresso nos anos 1990, a adoção do receituário neoliberal e o mito da globalização acabaram por inviabilizar tal opção. Quando Collor escancarou de forma generosa e irresponsável o mercado brasileiro à concorrência internacional, não havia meios de resistir.

E, apesar da enorme pressão contra tudo o que fosse público, mesmo no interior da administração do Estado sempre houve ilhas excelência para desenvolvimento de programas e processos na área de informática. Era o exemplo do CPQD na Telebrás, antes de sua privatização. Ou então o caso do SERPRO, ainda operando para o governo federal no âmbito do Ministério da Fazenda. Isso significa que, caso o setor público venha a confirmar sua demanda por esse tipo de serviço, a sociedade brasileira pode criar as condições para sua implementação. O que falta, porém, é uma garantia de continuidade na política pública e o estímulo para que as novas gerações de profissionais e usuários sejam educadas e formadas em ambiente favorável ao uso do software livre.

Para além da questão da economia de recursos do orçamento - aspecto que não deve ser negligenciado de forma nenhuma, a política pública de software livre carrega consigo a noção de inclusão digital, de política industrial e de estratégia de desenvolvimento nacional. O desenvolvimento de capacitação econômica e profissional no setor de TICs internamente é essencial para um projeto de País. Um território de dimensões continentais como nosso, uma sociedade complexa como a brasileira, uma população tão numerosa como a que atingimos e uma estrutura econômica tão diversa e dispersa como a que temos não podem prescindir de uma política de tecnologia de comunicação e informação também autônoma, e que seja adaptada e voltada para os nossos problemas e desafios.

O monitoramento da Amazônia verde, o acompanhamento da Amazônia azul (o Oceano Atlântico de 200 milhas por quase 8.000 km de costas), os desdobramentos do Pré-Sal, o monitoramento das situações de riscos, os mecanismos de defesa de nossas fronteiras e tantos outros itens vitais não podem ser deixados para tratamento pelas grandes empresas do setor. Na verdade, trata-se de afirmar um desejo e uma necessidade de independência tecnológica e de soberania nacional. A política de software livre é tão somente a ponta do iceberg de um conjunto mais amplo de medidas para que o Brasil tenha condições de enfrentar de forma competente e robusta os desafios desse mundo cada vez mais multipolar.

A institucionalidade da Presidência da República ainda manteve a estrutura responsável por esse tipo de ação, o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação. O governo possui até mesmo um Plano Plurianual para o setor. Mas o quadro atual é muito distante daquele descrito por Lula há 7 anos atrás. Uma das evidências mais carregadas de simbolismo é que a página específica da internet parece que parou no tempo. É necessário que o governo se dê conta da importância do tema e recupere o espaço perdido, recolocando o software livre como prioridade em sua agenda. Para tanto, é essencial que lembremos, a todo instante, à equipe de Dilma Rousseff sobre a natureza estratégica dessa política pública: não se esqueçam jamais do software livre!

* Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

Fonte: Brasil de Fato 

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segunda-feira, 4 de março de 2013

Wolf: Novas tecnologias e o leitor contemporâneo de Jorge Amado


 

Cultura

16 de Dezembro de 2012 - 8h17

Discutir o leitor contemporâneo da obra Amadiana não é tarefa das mais fáceis. Ainda mais levando-se em conta a complexidade sociocultural na qual tal leitor está inserido. E este atual período da globalização não deixa dúvidas em relação a isso.


Por Fábio Wolf*


As chamadas revoluções tecnológicas, de fato, implicam em alterações no campo cognitivo, reconfigurações nos espaços sociais e rupturas, tanto para o “bem” quanto para o “mal”, na forma como os sujeitos interagem com as obras literárias que lhes são acessíveis.

O cenário atual dá destaque primordial para a o mundo online e seus variados aplicativos, elementos que vêm ganhando, gradativamente, espaços que, outrora, eram dominados por formas tradicionais de leitura, discussão e compreensão dos gêneros literários. Observa-se a eclosão de blogs, fóruns virtuais, sítios especializados, o aumento significativo de usuários do Facebook e do Twitter como formas novas de contato com o mundo dos livros.

Há muita gente, diante desse cenário, que aposta, inclusive, na morte do livro físico, só para se ter uma ideia. Ainda devemos levar em consideração a miscelânea de fatores sociais que entra em jogo, interagindo com linguagens oriundas das mais diversas matizes culturais que estão em contado direto com esses suportes. Fato que torna a compreensão do leitor contemporâneo de Jorge Amado um processo ainda mais desafiador. Não sendo objetivo deste pequeno ensaio discutir detidamente todos esses aspectos, gostaríamos de construir o nosso recorte teórico/metodológico tendo como enfoque as novas gerações de leitores que estão inseridas, em sua grande maioria, no contexto social exposto anteriormente.

Em nosso entendimento, algumas questões devem ser colocadas no sentido de problematizar temas que julgamos essenciais para que a leitura crítica do legado de Jorge Amado não seja ofuscada por interpretações pós-modernas reducionistas. Dois fatores primordiais devem, então, ser debatidos. O primeiro, diz respeito, em grande medida, ao desafio de lidar criticamente com as novas tecnologias sem perder de vista a riqueza cultural presente nas obras do escritor baiano. Uma riqueza histórica, cultural e, sobretudo, política, tão essenciais ao esclarecimento e ao despertar de consciências dos seus leitores em relação às desigualdades sociais do passado, do presente e do futuro.

O segundo fator que gostaríamos de destacar no presente ensaio versa sobe a necessidade urgente de criarmos formas de ação, em especial nos campos da política, da cultura e da educação, com o objetivo precípuo de garantir que o legado Amadiano não caia no processo de “coisificação” e de “instrumentalização” que tanto empobrecem a leitura e a interpretação das suas obras.

São dois desafios que devem caminhar juntos se a nossa meta é a de lutar pela formação de leitores críticos que pensam a obra de Jorge Amado em sua plenitude, para muito além de se prepararem para exames de admissão em universidades, por exemplo. Infelizmente, muitos leitores das novas gerações têm sido obrigados a “engolir” clássicos literários com o único objetivo de serem aprovados em exames pré-vestibulares. Trata-se, sem dúvida, de um processo de instrumentalização reducionista e empobrecedor, pois, em grande parte dos casos, o processo crítico de leitura é substituído por uma prática dolorosa que tem como único objetivo a aprovação em um exame de admissão.

Os ensaios presentes no suplemento literário da revisa Princípios deste bimestre deixam claro que a obra de Jorge Amado é composta por uma riqueza política, cultural e simbólica imensuráveis e que podem ser melhor trabalhadas no sentido de preservar, entender e modificar o mundo desigual no qual vivemos.

O ritmo frenético das ditas sociedades pós-modernas, sua flagrante monetarização (“Time is Money”) surgem como forças hegemônicas que estão modificando os nossos comportamentos. Dos nossos íntimos desejos inconscientes ao nosso mecanizado cotidiano, a onda de mercantilização segue sua sanha de transformar tudo o que pode em mercadoria. E a formação da identidade dos novos leitores parece não escapar a esta lógica consumista. Aliás, as suas próprias identidades são entendidas como potenciais mercadorias a serem exploradas, de preferência, o mais rápido possível, “tempo é dinheiro”.

Infelizmente, as novas tecnologias têm servido mais a este fim do que propriamente à formação de uma geração leitora crítica, consciente do seu papel na superação dos preconceitos de classe e da exploração de classes, temas tão candentes nas obras de Jorge Amado. Esta problemática emerge, no nosso entendimento, como um grande desafio a ser enfrentado. Professores, alunos, ativistas culturais, intelectuais e a sociedade civil como um todo devem estar juntos no enfrentamento dessas questões.

Nesse sentido, as novas tecnologias, mais do que instigar uma leitura superficial, fast food, acrítica dos nossos grandes escritores, deve, ao contrário, incentivar o contato com novas linguagens e processos sócio-cognitivos que enriqueçam a leitura, aliando-se a padrões éticos que entendam o livro e o próprio processo de leitura não como meras mercadorias ou como “instrumentos” dirigidos a fins específicos de aprovação, mas, sim, como recursos simbólicos essenciais ao desenvolvimento pleno e humanista dos seus leitores. Afinal de contas, não é esse o principal objetivo de Jorge Amado e da chamada Literatura Engajada?

*Fábio Wolf é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada e Estudos de Linguagem, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

**Texto apresentado por ocasião da homenagem ao centenário de Jorge Amado, em São Paulo, dia 06/12/2012, na Fundação Maurício Grabois.


http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=201001#.UTTF-yqT9ZY