sábado, 30 de agosto de 2014

Dilma patrocina concentração da mídia

Por Theófilo Rodrigues, no site do Centro de EstudosBarão de Itararé:

Uma discussão que ainda permanece oculta no debate eleitoral é a que trata da distribuição das verbas oficiais de publicidade do governo federal. Para termos uma ideia do montante de recursos que isso envolve, apenas em 2012 foram repassados R$ 1,797 bilhão para as empresas de comunicação sob essa rubrica. Deste valor total, R$ 1,1 bilhão (63%) foi repassado apenas para as empresas de televisão.

Sob responsabilidade da Secretaria de Comunicação Social da presidência da República (Secom), esta distribuição vem sofrendo críticas de diversos setores. O movimento social, blogueiros e pequenos veículos de comunicação acusam a Secom de patrocinar a concentração dos recursos em pouquíssimos veículos; especialistas da área acusam o governo de se omitir na implantação de políticas públicas de fomento à diversidade informativa. Nem mesmo a substituição da ministra chefe da Secom Helena Chagas, por Thomas Traumman, no início de 2014, parece ter sido suficiente para provocar mudanças significativas.

Críticas ao critério da 'mídia técnica'

Entre 2003 e 2010, a Secom aumentou em 1.522% o número de órgãos de imprensa que recebiam receita publicitária governamental – de 499, a quantidade de veículos contemplados subiu para cerca de 8 mil. O tamanho do bolo era o mesmo, mas o número de fatias cresceu. Ainda que de forma tímida, ensaiava-se um avanço, mas o que se viu de 2010 pra cá foi um quadro de retrocesso.

Uma das principais queixas por parte de veículos alternativos diz respeito aos critérios de “mídia técnica”. A Secom tem afirmado repetidamente que, desde o governo Lula, iniciou uma distribuição de suas verbas a partir de critérios técnicos que priorizam a audiência dos veículos. A ex-ministra chefe da Secom, Helena Chagas, chegou a dizer, no início de 2014, que a mídia técnica “é a melhor fórmula que se inventou até hoje para aplicação correta e eficiente dos recursos públicos destinados a investimentos na área”.

Para a cientista política Larissa Ormay, especialista em temas relacionados à comunicação, a distribuição das verbas oficiais não deveria se resumir apenas a uma questão de audiência. “Se o direito à liberdade de expressão está garantido na Constituição Federal, cabe ao Estado brasileiro trabalhar para que essa liberdade democrática fundamental se efetive plenamente, ao invés de se escorar em critérios que, aparentemente neutros, só beneficiam os poderosos”, explica.

De acordo com Ormay, o governo federal não pode atuar como se fosse uma empresa, mas sim compreender seu papel de agente formulador de políticas públicas. “A distribuição de recursos públicos para a mídia vai muito além de levar a mensagem do governo ao maior número de pessoas possível. Ela deve ter em conta um compromisso de Estado com a democracia, com a promoção da ampla liberdade de expressão e, assim, seguir uma lógica distinta da lógica privada de remuneração da mídia por publicidade”.

Gilberto de Souza, editor chefe do jornal Correio do Brasil, é veemente na crítica do modelo. “Há que existir um critério para distribuição de publicidade estatal, sem dúvida. O atual, porém, não passa de uma desculpa esfarrapada para carrear os bilhões de reais destinados à propaganda de governo para a Rede Globo e seus veículos-satélites, em primeiro lugar, depois para as TVs abertas – concessionárias desde o tempo da ditadura militar. Em seguida, aos jornais e revistas do campo conservador e, o que restar, aos veículos regionais, que somam um número expressivo de pequenos periódicos suficientes para manter a aparência de que o critério é democrático”, analisa Souza.


Fonte: Blog do Fernando Rodrigues

Para Miguel do Rosário, autor do blog O Cafezinho, o critério utilizado pela Secom não acompanha a linha geral do próprio governo que é a da redistribuição da renda. “A mídia técnica não considera o contexto histórico do país”, avalia.

“O critério técnico”, de acordo com o editor chefe do portal Conexão Jornalismo, Fabio Lau, “é injusto porque privilegia as empresas consolidadas e não abre espaço para aqueles que estão entrando no mercado, formando públicos e voltados para absorver a mão de obra dispensada pelas grandes empresas”.

A imoralidade dos Bônus por Volume

Em meio ao grande debate sobre a distribuição das verbas oficiais de publicidade surgiu uma nova polêmica: o Bônus por Volume (BV) – que, segundo especialistas, só existe no Brasil. O mecanismo, criado na década de 50 e impulsionado a partir da ditadura militar, na década de 60, consiste na arrecadação financeira através de comissões dadas pelos veículos de comunicação às agências de publicidade de acordo com os negócios fechados entre elas.

Por exemplo: uma agência de publicidade que possui 10 clientes coloca todas as propagandas desses clientes em apenas um determinado veículo de televisão. Esse veículo, por sua vez, repassa uma comissão para a agência pela exclusividade dada. A consequência direta é a criação de um ciclo que fomenta a concentração da publicidade.

Larissa Ormay condena a utilização de BVs em contratos com órgãos públicos. “Como a finalidade do Estado, guiada pelo interesse público, é fundamentalmente distinta da finalidade das empresas de comunicação, que se ligam ao interesse privado pelo lucro em primeiro lugar, não faz sentido reproduzir o modelo baseado em BV no sistema público de remuneração da mídia”, afirma Ormay.

Para Gilberto de Souza, “trata-se de uma autêntica 'jabuticaba', que floresceu durante a ditadura com o objetivo de estabelecer uma política de dominação do segmento publicitário para aqueles veículos apoiados pelo regime militar. Trata-se de uma excrescência que ainda vigora e permite ao cartel da mídia um controle absoluto sobre os investimentos no setor”.

“É uma espécie de propina oficializada que deveria ser proibida, pois é concentradora de renda”, defende Miguel do Rosário.

Fabio Lau, por sua vez, opina que o “Bônus por Volume é a cristalização da corrupção, ou do favorecimento, àqueles que detêm o poder econômico. Ele tira do mercado publicitário quem tenta crescer. É uma maneira perversa de manter os mesmos, beneficiá-los e protegê-los”.

Curiosamente, em 2010 o presidente Luís Inácio Lula da Silva, sancionou lei de autoria do então deputado José Eduardo Cardoso (PT-SP), atual Ministro da Justiça, regulamentando os repasses do “Bônus por Volume” em vez de proibi-lo.

O estranho caso dos investimentos no Google

Em 2013, o estudo Brasil Conectado – Hábitos de Consumo de Mídia mostrou que, apesar de a rádio e a TV serem as mídias mais consumidas no país, a Internet é considerada, por 88% dos brasileiros, a plataforma mais importante na atualidade – há de se considerar o atraso das políticas de universalização do acesso à banda larga. A fatia de recursos destinados para a publicidade na Internet em 2012, porém, limitou-se a míseros 5,32% do bolo.

Outro problema denunciado por ativistas da área é que grande parte dos recursos voltados para a publicidade na internet tem sido repassada para o Google. O repasse da Secom vai para o site de buscas que retém uma parte e em seguida encaminha uma parte menor para os usuários de seu sistema de publicidade, o AdSense. Para os críticos desse modelo, não faz nenhum sentido triangular esse financiamento com uma empresa estrangeira, já que o repasse poderia ser feito diretamente para portais brasileiros.

Segundo Fabio Lau, trata-se de “transferência de renda para a iniciativa privada, para grandes grupos, só que estrangeiros”. Já Miguel do Rosário acredita que o investimento feito pela Secom no Google poderia ser evitado sem nenhum prejuízo político. “Esse investimento no Google é uma preguiça da Secom que vai custar muito caro para o Brasil”, avalia o blogueiro.

Larissa Ormay defende que o repasse seja feito diretamente, sem intermediários. “Essa publicidade parece desperdício de dinheiro público, um gasto desnecessário e ineficiente, pois o mesmo dinheiro poderia ser distribuído a uma grande variedade de veículos, amplificando vozes nos fluxos comunicacionais que compõem a esfera pública em prol da democracia brasileira”, explica.

Há também os que acreditam que a parceria da Secom com o Google é apenas uma forma de legitimação dos critérios de mídia técnica. “Esta foi a fórmula que a Secom encontrou para esconder seu propósito de seguir em frente no tal 'critério técnico' adotado, com o objetivo de não mexer no repasse de recursos à mídia conservadora, e parecer que distribui, de forma equânime e democrática, os ossos que restam do butim publicitário” denuncia o editor chefe do jornal Correio do Brasil.

A luta por mudanças na legislação

No último período, as críticas surgidas no âmbito da sociedade civil começaram a ocupar algum espaço no Parlamento. O Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, junto com outras entidades, chegou a participar de uma reunião com Helena Chagas, então presidente da Secom, para discutir os graves problemas na distribuição da verba publicitária.

Desde 2012, também funciona na Câmara dos Deputados uma subcomissão especial para o Financiamento da Mídia Alternativa, no âmbito da Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática.

Essa subcomissão teve como relatora a deputada federal Luciana Santos (PCdoB-PE), cujo relatório final, que contou com a colaboração de entidades como o Barão de Itararé, propôs a criação de uma cota de 20% da publicidade oficial do governo para emissoras de radiodifusão comunitária, de radiodifusão educativa e de veículos de comunicação caracterizados como microempresa, empresa de pequeno porte ou empresa individual de responsabilidade limitada.

Larissa Ormay defende a iniciativa da deputada Luciana Santos de criação de cotas nas verbas da Secom para a mídia alternativa, mas é cética quanto a sua aprovação. “No Brasil já existem alguns projetos de lei interessantes neste sentido, mas, como tudo que contraria os interesses das grandes corporações de mídia é abafado ou chamado de censura, esses projetos correm risco de engavetamento”.

De fato, a preocupação não está tão distante da realidade. No Rio de Janeiro, a deputada estadual Enfermeira Rejane (PCdoB-RJ) apresentou na ALERJ, em maio de 2013, o Projeto de Lei 2248, que institui uma cota de 20% da publicidade do governo estadual para a mídia alternativa.

Logo após a apresentação do PL, advogados da Editora Abril visitaram a ALERJ para criticar a proposta. Além da pressão contrária da mídia, o PL encontrou resistência no governador e em sua ampla base de apoio na Assembleia Legislativa.

“Infelizmente, não estamos encontrando maioria suficiente para aprovar um PL como esse que contraria os interesses das grandes corporações e os interesses do atual governo. Quem sabe em um próximo governo, com um novo governador e uma nova base na ALERJ?”, finaliza a parlamentar.

* Entre 5 de agosto e 5 de outubro, data marcada para as eleições de 2014, o Barão de Itararé publicará, às terças e quintas-feiras, reportagens especiais abordando temas ligados à comunicação que, geralmente, são excluídos do debate eleitoral. A reprodução é livre, desde que citada a fonte. Saiba mais sobre a iniciativa aqui.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A GUERRILHA DAS MÍDIAS ALTERNATIVAS



LIGADO .

Já há consenso nas esquerdas políticas e sociais brasileiras de que a mídia privada, controlada por meia dúzia de famílias, manipula informações e deforma valores. Ela atua como “aparelho privado de hegemonia do capital”, conforme a clássica definição de Antonio Gramsci. Ainda segundo o intelectual italiano, ela cumpre o papel de autêntico partido das forças da direita. Esta postura, que atenta contra a democracia, hoje é ainda mais agressiva. Como confessou recentemente Judith Brito, ex-presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e executiva do Grupo Folha, a velha mídia adota a “posição oposicionista” diante do governo Dilma, já que a “oposição está fragilizada”. Não é para menos ela também passou a ser rotulada de “PIG – Partido da Imprensa Golpista”, a partir de uma ironia difundida pelo irreverente blogueiro Paulo Henrique Amorim.
Por Altamiro Borges, para a série especial do Barão de Itararé*
Diante desse poder ditatorial, inúmeros atores sociais já perceberam que têm dois desafios simultâneos e titânicos pela frente. O primeiro é o de quebrar a força deste exército regular das classes dominantes. Daí a urgência da luta pelo novo marco regulatório do setor, que hoje se expressa na campanha liderada pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) de coleta de 1,4 milhão de assinaturas para o Projeto de Lei de Iniciativa Popular (Plip) da Mídia Democrática . O segundo é o de multiplicar e fortalecer os veículos próprios de comunicação das forças populares, construindo uma mídia contra-hegemônica que faça o contraponto às manipulações do poderoso PIG. Estes instrumentos atuam como uma guerrilha no enfrentamento ao império midiático, numa prolongada operação de cerco e fustigamento.
A história do Brasil está repleta de ricas experiências de construção desta “imprensa alternativa” – desde os anarquistas, no início do século XX, passando pelos comunistas durante várias décadas, até chegar à heroica fase do jornalismo de resistência à ditadura militar. Na fase recente, estas iniciativas se multiplicaram, conectando-se com as novas tecnologias e ganhando novo impulso. Elas ainda não conseguiram se constituir em fortes veículos de expressão nacional, como já ocorre em outros países da rebelde América Latina. Mesmo dispersos, porém, promovem a guerrilha informativa e incomodam os barões da mídia. O texto a seguir trata de quatro destas experiências, que não são as únicas: a imprensa sindical, a TV dos Trabalhadores, o movimento dos “blogueiros progressistas” e os novos coletivos de ativistas digitais.
A força da imprensa sindical
A imprensa sindical, iniciada pelos anarquistas estrangeiros, pode ser considerada a origem da “mídia alternativa”. Ela enfrentou a violência das classes dominantes, com o empastelamento de vários jornais e a prisão de centenas de gráficos e comunicadores populares. Na frágil democracia brasileira, inúmeras vezes abortada por golpes militares e ondas autoritárias, a imprensa sindical atuou com coragem e dedicação, contrapondo-se aos ataques dos veículos patronais contra as lutas dos trabalhadores por seus interesses imediatos e futuros. Após o colapso das concepções anarquistas, os comunistas passaram a hegemonizar o sindicalismo e sempre trataram como prioridade a comunicação nas entidades de classe.
O golpe militar de 1964, apoiado pelos mesmos barões da mídia dos dias atuais, interrompeu o avanço das lutas dos trabalhadores. Os generais intervieram em centenas de sindicatos, prenderam seus líderes, nomearam “pelegos” e transformaram as entidades em “repartições públicas”. A imprensa sindical quase faliu – restando apenas boletins de “colunas sociais”, de confraternização dos velhos pelegos com os empresários e os carrascos da ditadura. Mas a luta dos trabalhadores não cessou, com a criação de centenas de “jornais de fábrica” e a construção de oposições sindicais. Com a retomada do movimento grevista, no final da década de 1970, a imprensa sindical voltou a florescer.
Pesquisa realizada pelo ex-metalúrgico Vito Giannotti e pela jornalista Cláudia Santiago, do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), apontou a existência, no final dos anos 1990, de centenas de veículos sindicais. Somente nas entidades filiadas à CUT, a maior central do Brasil, trabalhavam mais de 300 jornalistas, que produziam mensalmente quase 7 milhões de exemplares de jornais e boletins. Como brinca Vito Giannotti, “maior do que a redação cutista só existia a das Organizações Globo”. De lá para cá, ocorreram muitas mudanças na área, mas o movimento sindical não perdeu a sua força comunicativa. Ele passou a investir também em programas de radio e tevê, na internet e em outras ferramentas.
Segundo o jornalista João Franzin, criador da Agência Sindical, esta vasta produção tem papel fundamental na conscientização e organização dos trabalhadores. “A imprensa sindical brasileira publica mais de 10 milhões de exemplares por mês, basicamente boletins e jornais, distribuídos nos locais de trabalho, entregues de mão em mão, no contato direto entre os sindicalistas e os trabalhadores”. Para ele, ainda há problemas nesta comunicação, especialmente na linguagem e no trato dos temas nacionais. Mas ele garante que estes meios alternativos são decisivos para os avanços da luta classista. “A imprensa sindical informa, orienta e combate abusos. Ela ajuda o trabalhador a construir sua cidadania concreta”.
A experiência da TV dos trabalhadores
Foi no bojo destes avanços sindicais que nasceu a TVT, a primeira emissora outorgada a uma entidade de trabalhadores. Ela entrou no ar em 23 de agosto de 2010, resultado de 23 anos de pressão do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista sobre o governo. Formalmente, ela pertence à Fundação Sociedade, Comunicação, Cultura e Trabalho, entidade cultural sem fins lucrativos, criada e mantida pelo sindicato. Vários conteúdos próprios são produzidos pela equipe, em especial um jornal ao vivo de trinta minutos – “Seu Jornal”. Também foram firmadas parcerias com a TV Brasil e outras emissoras públicas, que completam a grade de programação. Os programas são transmitidos na tevê a cabo e pela internet.
A decisão de investir numa emissora de televisão, conhecida pelos elevados custos, evidenciou a compreensão da direção sindical sobre o papel da comunicação na atualidade. Segundo Valter Sanches, presidente da fundação, a TVT emprega quase 100 profissionais. Só com equipamentos foi investido R$ 1 milhão. O custo mensal da programação gira em torno de R$ 400 mil. E para garantir a outorga da concessão pública, o sindicato precisou fazer um aporte financeiro de R$ 15 milhões com recursos próprios na conta da fundação. Mesmo assim, a outorga só foi conquistada em outubro de 2009, por meio de um decreto assinado pelo ex-presidente Lula, que se projetou na luta operária do ABC paulista.
Todos estes investimentos e esforços empreendidos, segundo Valter Sanches, foram necessários e valem a pena para enfrentar as manipulações da mídia monopolizada. Já nas greves operárias do final da década de 1970 ficou evidente o ódio de classe das emissoras privadas de televisão, que fizeram de tudo para satanizar os grevistas e derrotar o nascente movimento operário. “O sindicato abraçou o desafio de esperar 22 anos na fila por uma concessão de radiodifusão porque percebeu a importância estratégica da comunicação. Entendeu que precisamos lutar, também, nesse campo”.
Para alavancar ainda mais o alcance da TVT, a fundação articula agora novas parceiras e novos investimentos. No final de julho passado, a fundação firmou um acordo com a direção do Sindicato dos Bancários de São Paulo para produzir novos programas e ampliar a abrangência da difusão.
A TVT não consegue ainda mensurar sua audiência, mas desde o ingresso na tevê a cabo, via NET, os sinais da vitalidade da emissora ficaram mais nítidos. A meta agora é ampliar este alcance, dialogando principalmente com a juventude que saiu às ruas na jornada de junho de 2013. “As pessoas buscam ter voz, querem divulgar suas ações. E para isso não existe espaço na mídia tradicional”, explica Valter Sanchez. Ele lembra que a TV Globo foi um dos alvos dos protestos juvenis, o que revela o despertar de maior senso crítico na sociedade. 
O barulho dos “blogueiros sujos”
O espírito crítico realçado pelo dirigente da TVT tem buscado também outros canais de expressão, que se somam às antigas formas de organização da sociedade, como sindicatos, entidades estudantis e movimentos comunitários. Neste sentido, a brecha tecnológica aberta com o advento e a difusão da internet permite que novos atores entrem em cena, produzam conteúdo e ampliem ainda mais o terreno da chamada “mídia alternativa”. No mundo inteiro, a experiência do ciberativismo, que ganhou impulso no início do século, desafia o poder dos impérios comunicacionais, resultando na queda abrupta da tiragem dos jornalões, na redução da audiência de emissoras de televisão e na crise do seu modelo de gestão.     
No Brasil, o mesmo fenômeno está em curso e já provoca muito barulho, incomodando os barões da mídia nativa. Através de sites e blogs, milhares de ativistas digitais fazem o contraponto às manipulações da velha imprensa, divulgam os movimentos sociais e lutam pela ampliação da democracia no país. No seu esforço cotidiano da guerrilha informativa, eles ajudam a quebrar o monopólio da palavra. Não é para menos que geram tanto ódio das forças autoritárias, contrárias à verdadeira liberdade de expressão. José Serra, o eterno candidato deste setor, inclusive criou o rótulo de “blogs sujos” para tentar estigmatizar estes militantes virtuais. Na sua irreverência, os blogueiros adoraram o título!
Em 2010, Encontro Nacional de Blogueiros reuniu mais de 300 pessoas em SP.Em 2010, Encontro Nacional de Blogueiros reuniu mais de 300 pessoas em SP.Segundo Leonardo Vasconcelos Cavalier Darbilly, em sua tese de doutorado para a Fundação Getúlio Vargas, “o surgimento da blogosfera política no Brasil, caracterizada pela divergência com relação ao posicionamento de grande parte da mídia tradicional, ocorreu ao longo da década de 2000”. O primeiro “blog sujo” foi o Viomundo, criado pelo jornalista Luiz Carlos Azenha em 2003. Em 2005 nasceram os blogs de Renato Rovai e Antônio Mello; Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, e o blog de Luis Nassif surgem em 2006; no ano seguinte nasce o Blog da Cidadania, criado por Eduardo Guimarães; já o blog Escrevinhador, de Rodrigo Vianna, apareceu em 2008.
Neste período, por todos os cantos do país – nas capitais e também em importantes cidades do interior – brotaram centenas de páginas pessoais que se contrapõem às forças políticas conservadoras e que polemizam com a mídia tradicional. Muitos jornalistas, descontentes com a cobertura enviesada da chamada grande imprensa, utilizam esta ferramenta para expor as suas posições criticas e independentes. Mas a blogosfera não se limita a este setor, permitindo que profissionais de diversas áreas exponham seus pontos de vista sobre vários temas. A maioria dos blogs ainda é produzida de forma amadora, sem recursos financeiros ou apoio logístico. Em função destes obstáculos, uma porção significativa não resiste por muito tempo.
Mesmo assim, a blogosfera foi se constituindo num importante espaço da mídia contra-hegemônica. Ela atua como uma rede horizontal, sem a organicidade dos sindicatos e dos movimentos sociais estruturados, mas demonstra grande capacidade de interferir nos debates nacionais. O seu primeiro grande teste ocorreu eleições presidenciais de 2010, quando ajudou a desmascarar a cobertura partidarizada do famoso PIG. Com o tempo, os sites e blogs progressistas também se articularam, promovendo quatro encontros nacionais que primaram pela busca da “unidade na diversidade”. Hoje, a blogosfera é um instrumento decisivo na construção de uma influente mídia alternativa no Brasil.
Mídia Ninja e os novos coletivos
Sem cortes ou edição, câmeras de celulares são 'armas' de coletivos.Sem cortes ou edição, câmeras de celulares são 'armas' de coletivos.O florescimento de novos coletivos digitais, que agregam jovens criativos e ousados nascidos na era da internet, é outro elemento que compõe este rico cenário. O mais conhecido é o Mídia Ninja – nome do grupo “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”. Criado em 2011, o coletivo ganhou projeção nacional durante a jornada de protestos do ano passado, que abalou o país. Usando câmeras de celulares e unidades móveis montadas em carrinhos de supermercado, estes guerrilheiros virtuais transmitiram ao vivo centenas de passeatas, atos e choques com a polícia em todo o Brasil. Em alguns momentos, eles chegaram a pautar a paquidérmica e rancorosa mídia tradicional.
O Mídia Ninja teve origem na experiência do Pós-TV, uma iniciativa inovadora organizada pelo coletivo cultural Fora do Eixo. Sempre identificado com as lutas libertárias, ele cobriu a “marcha da maconha”, a “marcha das vadias” e as manifestações em defesa dos povos indígenas Guarani-Kaiowá. A partir das massivas manifestações de 2013, porém, ele passou a ser alvo das forças de direita, sediadas nas redações da chamada grande imprensa. Este ataque resultou numa maior aproximação com os movimentos sociais organizados e com os setores da mídia alternativa. Como argumenta Rafael Vilela, integrante do coletivo, “ficou mais nítida a necessidade da união com os movimentos sociais na luta pela democratização do país”.
Para ele, a comunicação e a luta social são inseparáveis. “Por isso entramos em lugares que a mídia convencional não vai. Damos voz direta aos personagens, sem intermediários”. Na sua visão, o “Mídia Ninja é um laboratório de comunicação, que visa desmascarar o que a grande mídia edita e mostra como única verdade existente”. Do ponto de vista do futuro, Rafael Vilela defende que a iniciativa “não é e nem deve ser um núcleo de cobertura de protestos, mas sim um canal midiático cidadão, trabalhando com diversas editorias, que vá dos protestos ao lazer e à cultura, sem abrir mão da crítica”. Neste rumo, a experiência é uma importante contribuição ao fortalecimento da mídia alternativa no Brasil. 
 *Entre 5 de agosto e 5 de outubro, data marcada para as eleições de 2014, o Barão de Itararé publicará, às terças e quintas-feiras, reportagens especiais abordando temas ligados à comunicação que, geralmente, são excluídos do debate eleitoral. A reprodução é livre, desde que citada a fonte. Saiba mais sobre a iniciativa aqui.

Fonte:  http://baraodeitarare.org.br/index.php?