quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Brasil vai sediar conferência global sobre governança da internet


Pós-espionagem

Após reunião no Planalto, representante de órgão de coordenação da rede afirma que agradeceu Dilma por liderar o mundo no debate a respeito das normas globais no setor
por Redação RBA publicado 09/10/2013 13:54
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Roberto Stuckert Filho/Planalto
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Após as denúncias de que foi espionada pelos EUA, Dilma adotou a governança da internet como agenda
São Paulo – O Palácio do Planalto anunciou hoje (9) que o Brasil vai sediar em 2014 uma conferência global sobre governança da internet. A decisão foi comunicada após reunião entre Dilma Rousseff e o executivo-chefe da Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (Icann, na sigla em inglês), Fadi Chehadé.
Chehadé disse ao Blog do Planalto que o encontro vai reunir, além de líderes mundiais, representantes da sociedade civil, da comunidade técnica e da indústria. O Icann é a entidade responsável por coordenar a identificação global de nomes e domínios usados na internet.
Nas últimas semanas, Dilma adotou o tema da governança global da internet como centro de sua política externa, depois que ficou comprovado que os Estados Unidos se valeram de sua agência nacional de segurança, a NSA, para espionar mensagens pessoais da presidenta e vasculhar dados da Petrobras e do Ministério de Minas e Energia.
As denúncias levaram Dilma a cancelar a visita que faria este mês aos Estados Unidos. No plano interno, ela deu ênfase à necessidade de aprovação rápida do marco civil da internet e, no externo, de criação de regras que descentralizem o controle da rede mundial. Em setembro, ao fazer o discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, a presidenta reiterou que é necessário levar aos fóruns internacionais um debate em torno do tema.
Hoje, em Brasília, Chehadé disse que Dilma falou por “todos nós” em Nova York. “Ela foi a líder do mundo naquele dia e eu vim aqui para agradecê-la pela sua liderança e para discutir como partiremos da visão dela para o futuro a fim de conseguir soluções práticas, porque a confiança do mundo na internet global foi ferida. E agora é hora de recuperar essa confiança, pela liderança e pelas instituições que podem fazer isso acontecer.”

fonte:  http://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2013/10/brasil-vai-sediar-conferencia-global-sobre-governanca-da-internet-8508.html

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Carta do III Fórum da Internet no Brasil defende Marco Civil e neutralidade da rede

http://www.baraodeitarare.org.br/index.php/component/content/article/20-slideshow/297-carta-do-iii-forum-da-internet-no-brasil-defende-marco-civil-e-neutralidade-da-rede
 
O III Fórum da Internet no Brasil, que ocorreu entre 3 e 5 de setembro, em Belém (PA), produziu uma carta destinada aos parlamentares brasileiros como resultado dos debates ocorridos ao longo do evento. O documento defende a aprovação integral do Marco Civil da Internet e a importância da neutralidade da rede para a liberdade e a democracia na Internet brasileira. O projeto de lei, que vem sendo sistematicamente barrado por interesses de setores conservadores, garante os direitos à liberdade de expressão e à privacidade na rede.
Confira a íntegra da carta:
"Excelentíssimos Senadores e Senadoras
Na audiência pública realizada no Senado Federal no dia 03 de setembro de 2013, conforme noticiado na imprensa, o representante das empresas de telecomunicações afirmou que o projeto de lei denominado Marco Civil da Internet, ainda na Câmara dos Deputados, atrapalha a inclusão digital e privilegia alguns usuários em detrimento de muitos.
Nós, entidades da sociedade civil e representantes da academia, reunidos no III Fórum da Internet no Brasil gostaríamos de esclarecer alguns pontos de tal argumento, de forma a repudiar quaisquer interpretações distorcidas que desconsideram todos os avanços alcançados por anos de debate transparente e democrático em torno do Marco Civil.
Argumentos nesse sentido representam uma total distorção do conceito de neutralidade de rede. E, ironicamente, o risco de segmentar a inclusão digital está precisamente no futuro modelo de negócios pretendido pelas teles ao rechaçar as proteções a esse princípio.
Destaca-se que garantir a neutralidade de rede não afeta em nada o modelo de negócios vigente, em que é possível comercializar planos de acordo com a velocidade de conexão. Neutralidade de rede diz respeito apenas ao tratamento isonômico dos diversos tipos de pacotes de dados que trafegam na rede. Ou seja, garante que todos conectem-se na mesma rede de forma isonômica e livre, ainda que em velocidades distintas.
Por outro lado, sem a garantia da neutralidade de rede, as empresas de telecomunicações poderão fracionar a Internet que temos hoje para cobrar preços diferenciados de acordo com os tipos de pacotes que trafegam nas redes. Tal posicionamento resultaria em uma internet pedagiada, cujo valor, diferente do que é hoje, seria calculado de acordo com os serviços e aplicações acessados na Internet. Trata-se de uma estratégia para aumentar a margem de lucro das operadoras, sem que haja qualquer investimento extra em infraestrutura e inovação, mas que cria diferentes tipos de Internet, acessíveis de acordo com o poder aquisitivo dos usuários, perpetuando o problema histórico da desigualdade no Brasil.
Dizer que o Marco Civil é contra a inclusão digital é, portanto, uma falácia. É apenas garantindo a neutralidade que se assegura o acesso à rede como um todo, viabilizando a liberdade de expressão, a criatividade e inovação na Internet. Razão pela qual esse é um dos princípios estruturais do Marco Civil.
Sendo assim, não concordamos com qualquer retrocesso das cláusulas que asseguram o princípio da neutralidade da rede no Marco Civil. A redação do art. 9º presente no relatório do PL divulgado em 20 de novembro traz pontos cruciais, como a regulamentação por Decreto, e balizas relevantes para a definição das exceções técnicas, que não podem ser abandonados.
Por fim, ressaltamos que o Congresso Nacional está diante de uma polarização entre interesses privados de uma minoria e o interesse público de desenvolvimento científico, tecnológico e social de toda a nação, pois uma decisão contrária à proteção da neutralidade de rede coloca em risco a Internet como conhecemos hoje e a que queremos no futuro. Solicitamos, portanto, que os excelentíssimos senadores tomem em conta essas distorções de discurso, salientando que a ampla participação social que construiu esse projeto de lei e agora pressiona pela sua aprovação está do lado da neutralidade da rede e da defesa do Marco Civil como Carta de Princípios para a Internet brasileira, tendo entre seus fundamentos o acesso universal e sem discriminação à Internet".
Da redação

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O analfabeto midiático

http://outraspalavras.net/destaques/o-analfabeto-midiatico/

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“Ele imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo esforço intelectual”. Reflexões em torno de poema de Brecht, no século 21
Por Celso Vicenzi


Leia, ao final do texto, O Analfabeto Político, de Bertolt Brecht

O pior analfabeto é o analfabeto midiático.
Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país.
Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%.
O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar. Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos. Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”. Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada.
O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista. O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos. Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.”
O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público. Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia.
Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

O analfabeto político
O pior analfabeto, é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha
Do aluguel, do sapato e do remédio
Depende das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que
Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil,
Que da sua ignorância nasce a prostituta,
O menor abandonado,
O assaltante e o pior de todos os bandidos
Que é o político vigarista,
Pilanta, o corrupto e o espoliador
Das empresas nacionais e multinacionais.
Bertold Brecht

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Participe da eleição para o Comitê Gestor da Internet no Brasil

 
Criado em .
 
Em 2014, o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) renova a sua composição. O CGI.br é uma organização criada para coordenar e integrar todas as iniciativas de serviços de Internet no país, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a disseminação dos serviços ofertados. É o órgão de governança da Internet.
Entre outras atribuições, o CGI.br estabelece diretrizes estratégicas relacionadas ao uso e desenvolvimento da internet no Brasil e faz a coleta, organização e disseminação de informações sobre os serviços internet, incluindo indicadores e estatísticas. Saiba mais sobre o CGI.br
Importância de participar
Participar do CGI.br é ter a oportunidade de influir nos processos de decisão da governança da rede tanto no Brasil como em foros internacionais.
Num mundo em que a cada dia aumenta a influência que a internet tem na vida econômica, social, política e cultural de todos, mesmo dos que não estão na rede, espaços como o CGI.br devem ser vistos como estratégicos para a defesa de direitos. Principalmente com o crescimento das ameaças de cerceamento à liberdade de expressão, à privacidade, ao acesso ao conhecimento e mesmo ameaças à segurança pessoal de ativistas e defensores de direitos, facilmente monitoráveis através de suas atividades online.
Garantir políticas e uma governança da Internet a partir de uma perspectiva de direitos é crucial para o fortalecimento da democracia e a justiça social. No Brasil, o CGI.br é um espaço crítico para essa garantia, por isso é tão importante que a sociedade civil organizada se envolva intensamente na escolha de seus representantes no CGI.br.
Como participar
O CGI é composto por representantes do governo, do setor empresarial, do terceiro setor e da área acadêmica. Os membros do governo são indicados pelos órgãos que compõem o Comitê, mas os representantes da sociedade civil (empresários, acadêmicos e entidades do terceiro setor) são eleitos por colégios eleitorais compostos por entidades ligadas a cada setor. Assim, há um colégio eleitoral para cada segmento, e estes colégios são compostos durante o processo de cada eleição. Por isso é muito importante a ampla participação da sociedade civil organizada.
As entidades da sociedade civil podem se inscrever no Colégio Eleitoral que escolherá os quatro representantes do "terceiro setor" para um mandato de três anos, com início em 2014. A presença das entidades civis progressistas nas eleições ocorridas até agora tem sido pequena, quase irrelevante pelo tamanho do nosso setor. Quanto mais entidades tivermos no Colégio Eleitoral, mais legitimados estarão os representantes escolhidos.
Para participar as entidades interessadas, que devem ser legalmente constituídas e possuírem CNPJ, devem encaminhar uma lista de documentos para se inscreverem no Colégio Eleitoral. O prazo para as inscrições termina em 30 de julho de 2013. Veja o cronograma completo do processo eleitoral.
Todas as informações em detalhe, inclusive o Edital para esta eleição, estão no portal do CGI.br.

TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER PARA PARTICIPAR DA ELEIÇÃO DO CGI
Isso vale também para aqueles que participaram das eleições em 2010.
1) Ser organização não governamental e sem fins lucrativos legalmente constituída com CNPJ;
2) Estar em atividade há mais de dois anos (em relação a 22 de março de 2013 – data de publicação do edital);

Para as entidades que participaram das eleições de 2010
A renovação da organização no colégio eleitoral está condicionada a:
1) Preencher o formulário disponível aqui;
2) Envio ao CGI.br, ATÉ 30 DE JULHO, por carta registrada, por e-mail ou protocolo em sua sede até às 17h (horário de Brasília), dos documentos abaixo. Não esquecer de colocar o número de inscrição – veja nas instruções relativas ao endereço
I – Cópia simples do CNPJ da Entidade (impressão do site da Secretaria da Receita Federal);
II – Cópias simples da última ata de assembleia de eleição e da posse da diretoria, em acordo com a periodicidade do estatuto, com comprovação de registro desse documento no órgão competente;
III – Procuração, se necessário for, designando o Representante Legal da Entidade para fins deste processo eleitoral; e
IV – Cópia do CPF e da Identidade do Representante Legal.

Para as entidades que NÃO participaram das eleições de 2010
O cadastramento no colégio eleitoral está condicionado a:
1) Preencher o formulário disponível aqui;
2) Envio ao CGI.br, ATÉ 30 DE JULHO, por carta registrada, por e-mail ou protocolo em sua sede até às 17h (horário de Brasília), dos documentos abaixo. Não esquecer de colocar o número de inscrição – veja nas instruções relativas ao endereço
I – Cópia simples do CNPJ da Entidade (impressão do site da Secretaria da Receita Federal) – http://www.receita.fazenda.gov.br/pessoajuridica/cnpj/cnpjreva/cnpjreva_solicitacao.asp;
II – Cópia simples do estatuto de formação da Entidade, com comprovação de registro desse documento no órgão competente;
III – Cópias simples da última alteração estatutária ocorrida até a data de envio dos documentos, com comprovação de registro no órgão competente;
IV – Cópias simples da última ata de assembleia de eleição e da posse da diretoria, em acordo com a periodicidade do estatuto, com comprovação de registro desse documento no órgão competente;
V – Cópia simples do documento que comprova que a entidade tem dois anos de exercício de sua atividade na data de publicação deste Edital
VI – Procuração, se necessário for, designando o Representante Legal da Entidade para fins deste processo eleitoral; e
VII – Cópia do CPF e da Identidade do Representante Legal.

Endereço - os documentos devem ser enviados para:
CGI.br – A/C Comissão Eleitoral. Inscrição nº (o nº de inscrição da entidade consta no e-mail encaminhado pelo CGI.br após preenchimento do formulário online).
Av. das Nações Unidas, 11.541, 7° andar- CEP: 04578-000 – São Paulo – SP
Ou por e-mail:
Dúvidas também podem ser enviadas a este e-mail.
MUITO IMPORTANTE NOS DOIS CASOS
Depois que os documentos forem recebidos no CGI.br, será enviado um e-mail ao representante legal para confirmação e recebimento de informações adicionais. O cadastramento deverá ser validado por meio do endereço www.cgi.br/eleição2013 que será citado na mensagem de confirmação.
SE NÃO HOUVER A VALIDAÇÃO, A ENTIDADE NÃO TERÁ O SEU CADASTRO REALIZADO.

terça-feira, 5 de março de 2013

Paulo Kliass: Quem se esqueceu do software livre?

Fonte:  http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=206835&id_secao=10

3 de Março de 2013 - 8h45

As propostas de grupos como o Wikileaks e as ações mais recentes de Julian Assange, a partir do asilo concedido na Embaixada do Equador em Londres, recolocam no centro do debate político internacional questões essenciais que relacionam economia, poder e informática, nestes tempos de mudanças profundas nos padrões tecnológicos e culturais da sociedade contemporânea. A era da emergência das chamadas tecnologias da informação e comunicação (TICs).


Por Paulo Kliass*


No Brasil, o movimento pela democratização das condições de “ciência, tecnologia e inovação” encontra um espaço importante no movimento para disseminação do software livre. Afinal, convenhamos que é mesmo um absurdo ficarmos, todos nós, reféns das vontades e dos interesses de um punhado de poderosas mega-empresas da tecnologia virtual. É o caso da Microsoft e similares, que ganham fortunas apenas com os direitos autorais e de propriedade de seus programas, os chamados produtos software e aplicativos. Isso sem contar o enorme faturamento obtido também com a produção de máquinas e equipamentos, os produtos hardware. Usam e abusam de sua imensa influência para impedir o surgimento de outros caminhos. Escondem a 7 chaves os segredos de sua linguagem e de seus códigos, as fontes de seu poder no mercado e na sociedade.

Independência frente aos grandes grupos

Em razão desse tipo de constrangimento, é crescente o movimento de constituição de alternativas que não dependam desse tipo de amarração jurídica e financeira aos grandes grupos. Por todos os continentes são constituídos, a todo momento, grupos formais e comunidades informais de pesquisadores, profissionais e demais interessados, cujo objetivo é criar e oferecer, para toda a sociedade, o livre acesso aos mesmos tipos de programas de informática sem a necessidade de remunerar monetariamente direitos autorais ou de propriedade. São os chamados “free software”. Pra além do não pagamento, a idéia de “free” deve ser associada à liberdade para os usuários dominarem e abrirem a “caixa preta” dos sistemas. Com isso, os mesmos poderiam ser aperfeiçoados e reproduzidos de forma generalizada. O objetivo maior sendo a democratização do acesso e do uso dos programas.

No entanto, para que essa alternativa se viabilize e seja aceita de forma ampla, dentre os inúmeros universos de usuários existentes, é essencial que tais iniciativas contem com o apoio do Estado, por meio da formulação e implementação de políticas públicas para o setor. Afinal, as medidas estratégicas visando a universalização da inclusão digital deveriam incorporar a noção implícita de que o direito ao acesso ao mundo virtual é condição fundamental do exercício pleno da cidadania.

Apoio do Estado e políticas públicas

O apoio da Administração Pública pode vir sob diversas formas. A primeira delas é por meio de políticas de incentivo e financiamento ao desenvolvimento de software livre, tanto nas universidades e nos centros de pesquisa, quanto nos grupos informais e comunidades de ativistas. Com isso, contribuindo para criar massa crítica e para tornar permanente a formação de profissionais com esse perfil. Em segundo lugar, o Estado pode atuar de forma mais incisiva ao estabelecer que suas necessidades e solicitações de produtos e serviços de informática sejam direcionadas para o software livre. Com isso, ficaria assegurada uma demanda significativa para esse tipo de alternativa de programas e os orçamentos da União, dos estados e dos municípios deixariam de ser onerados pelos encargos com pagamento de direitos às grandes empresas de TICs. Em terceiro lugar, o Estado deve constituir fundos de financiamento específicos para o desenvolvimento desse tipo de programa, com o objetivo de disseminar sua utilização e oferecer condições de pesquisa e empreendedorismo para todos que desejem atuar com esse tipo de projeto. Finalmente, cabe aos órgãos governamentais exercer de forma mais incisiva seu papel de regulamentador e fiscalizador das condições de concorrência no mercado, para evitar as conhecidas práticas sob a forma de cartel ou abuso de poder econômico.

Ascensão e queda no governo Lula

Como se pode perceber a tarefa é árdua e as oportunidades políticas não podem ser desperdiçadas. Assim, o processo da vitória de Lula nas eleições presidenciais e o início de seu mandato em 2003 foram vistos pelas entidades, grupos e indivíduos que atuavam na área como o grande momento para colocar o processo em marcha e transformar o sonho em realidade. O lema generalizado era: “Sim, é possível!”. Durante os primeiros anos de governo houve até mesmo um esboço de incentivo à ampliação do uso do software livre e de sua propagação como política pública federal. Diversos grupos de trabalho foram constituídos para implementação de medidas em áreas como: i) inclusão e acesso digitais; ii) aprofundamento da estratégia do governo eletrônico; e iii) universalização da produção e acesso ao software livre, dentro e fora dos órgãos governamentais.

Porém, a força das empresas do setor não esperou muito para se manifestar. E, pouco a pouco, os poderosos das TICs foram reconquistando o terreno, articulando junto a políticos influentes no Executivo e reforçando seu “lobby” junto ao Legislativo. O objetivo central era minar, ainda no nascedouro, essa chamada “aventura irresponsável” do software livre. Apesar de perder força no interior do governo, a iniciativa ainda se mantinha acesa na esfera de poder da Presidência da República. Tanto que o próprio Lula assinou, em 2005, a apresentação de uma importante diretiva para que o software livre fosse adotado como regra para o uso das políticas de informática no interior da Administração Pública.

O documento “Guia Livre: Referência de Migração para Software Livre do Governo Federal” estabelece uma estratégia para completar um processo que teve início logo no início do governo: romper a dependência tecnológica e financeira em relação aos grandes grupos. O texto assinado pelo Presidente não poderia ser mais claro a respeito de um engajamento com tal opção de política pública:

“Nos últimos três anos, implementamos uma forte política de independência tecnológica, de fortalecimento da pesquisa em computação de alto desempenho, de inclusão digital e de adoção do software livre. Elementos que compõem uma política industrial e uma estratégia de desenvolvimento nacional para esse setor.”

O texto de Lula refletia, com toda a certeza, o pensamento e a vontade da maioria dos integrantes de sua equipe de governo a respeito do assunto até o ano de 2005. O software livre era encarado como política pública e merecia o tratamento de prioridade. Vejamos outro trecho carregado de recados e significados:

“Quero agradecer a todos os que defendem o software livre e lutam pelo aprofundamento e ampliação dos direitos de cidadania em todo o mundo. As potencialidades e os desafios das novas tecnologias da informação têm cada vez mais importância para o efetivo exercício desses direitos. Em nosso ponto de vista, o acesso a esses avanços tecnológicos deve ser direito de todos e não privilégio de poucos. Por isso, o governo federal tem intensificado o diálogo democrático com a sociedade e tratado o software livre e a inclusão digital como política pública prioritária. Entre os resultados desse diálogo estão programas importantes em curso no País.” (grifo nosso)

Apesar dessa diretriz inequívoca, a questão do software livre foi, pouco a pouco, perdendo espaço na pauta de governo. O jogo de pressão das grandes empresas terminou por vencer a disputa, pois os dirigentes políticos não tiveram a coragem necessária para levar à frente esse importante projeto. O roteiro foi muito semelhante ao do que ocorreu com a submissão aos interesses dos banqueiros e do financismo, aos interesses das empreiteiras e das construtoras, aos interesses dos representantes do agronegócio e do latifúndio, aos interesses das empresas de telecomunicações e aos interesses dos grandes meios de comunicação. Neste caso, em particular, o governo terminou cedendo aos interesses dos grandes grupos de TICs. Tudo em nome da suposta necessidade de governabilidade. Tudo plenamente justificado pela busca de um modelo de realismo e pragmatismo políticos, que sempre termina por distorcer o sentido primeiro da conquista do poder: a transformação social.

Urgência em retomar o tema e o potencial do Brasil

O Brasil tem uma história recente que confirma seu potencial para alavancar um setor de computação competente e eficaz. Isso vem desde a antiga política nacional de informática, quando se pretendia desenvolver um setor nacional, com incentivos fiscais e estímulo governamental. Apesar dos problemas apresentados por tal estratégia, o fato é que o ingresso nos anos 1990, a adoção do receituário neoliberal e o mito da globalização acabaram por inviabilizar tal opção. Quando Collor escancarou de forma generosa e irresponsável o mercado brasileiro à concorrência internacional, não havia meios de resistir.

E, apesar da enorme pressão contra tudo o que fosse público, mesmo no interior da administração do Estado sempre houve ilhas excelência para desenvolvimento de programas e processos na área de informática. Era o exemplo do CPQD na Telebrás, antes de sua privatização. Ou então o caso do SERPRO, ainda operando para o governo federal no âmbito do Ministério da Fazenda. Isso significa que, caso o setor público venha a confirmar sua demanda por esse tipo de serviço, a sociedade brasileira pode criar as condições para sua implementação. O que falta, porém, é uma garantia de continuidade na política pública e o estímulo para que as novas gerações de profissionais e usuários sejam educadas e formadas em ambiente favorável ao uso do software livre.

Para além da questão da economia de recursos do orçamento - aspecto que não deve ser negligenciado de forma nenhuma, a política pública de software livre carrega consigo a noção de inclusão digital, de política industrial e de estratégia de desenvolvimento nacional. O desenvolvimento de capacitação econômica e profissional no setor de TICs internamente é essencial para um projeto de País. Um território de dimensões continentais como nosso, uma sociedade complexa como a brasileira, uma população tão numerosa como a que atingimos e uma estrutura econômica tão diversa e dispersa como a que temos não podem prescindir de uma política de tecnologia de comunicação e informação também autônoma, e que seja adaptada e voltada para os nossos problemas e desafios.

O monitoramento da Amazônia verde, o acompanhamento da Amazônia azul (o Oceano Atlântico de 200 milhas por quase 8.000 km de costas), os desdobramentos do Pré-Sal, o monitoramento das situações de riscos, os mecanismos de defesa de nossas fronteiras e tantos outros itens vitais não podem ser deixados para tratamento pelas grandes empresas do setor. Na verdade, trata-se de afirmar um desejo e uma necessidade de independência tecnológica e de soberania nacional. A política de software livre é tão somente a ponta do iceberg de um conjunto mais amplo de medidas para que o Brasil tenha condições de enfrentar de forma competente e robusta os desafios desse mundo cada vez mais multipolar.

A institucionalidade da Presidência da República ainda manteve a estrutura responsável por esse tipo de ação, o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação. O governo possui até mesmo um Plano Plurianual para o setor. Mas o quadro atual é muito distante daquele descrito por Lula há 7 anos atrás. Uma das evidências mais carregadas de simbolismo é que a página específica da internet parece que parou no tempo. É necessário que o governo se dê conta da importância do tema e recupere o espaço perdido, recolocando o software livre como prioridade em sua agenda. Para tanto, é essencial que lembremos, a todo instante, à equipe de Dilma Rousseff sobre a natureza estratégica dessa política pública: não se esqueçam jamais do software livre!

* Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

Fonte: Brasil de Fato 

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segunda-feira, 4 de março de 2013

Wolf: Novas tecnologias e o leitor contemporâneo de Jorge Amado


 

Cultura

16 de Dezembro de 2012 - 8h17

Discutir o leitor contemporâneo da obra Amadiana não é tarefa das mais fáceis. Ainda mais levando-se em conta a complexidade sociocultural na qual tal leitor está inserido. E este atual período da globalização não deixa dúvidas em relação a isso.


Por Fábio Wolf*


As chamadas revoluções tecnológicas, de fato, implicam em alterações no campo cognitivo, reconfigurações nos espaços sociais e rupturas, tanto para o “bem” quanto para o “mal”, na forma como os sujeitos interagem com as obras literárias que lhes são acessíveis.

O cenário atual dá destaque primordial para a o mundo online e seus variados aplicativos, elementos que vêm ganhando, gradativamente, espaços que, outrora, eram dominados por formas tradicionais de leitura, discussão e compreensão dos gêneros literários. Observa-se a eclosão de blogs, fóruns virtuais, sítios especializados, o aumento significativo de usuários do Facebook e do Twitter como formas novas de contato com o mundo dos livros.

Há muita gente, diante desse cenário, que aposta, inclusive, na morte do livro físico, só para se ter uma ideia. Ainda devemos levar em consideração a miscelânea de fatores sociais que entra em jogo, interagindo com linguagens oriundas das mais diversas matizes culturais que estão em contado direto com esses suportes. Fato que torna a compreensão do leitor contemporâneo de Jorge Amado um processo ainda mais desafiador. Não sendo objetivo deste pequeno ensaio discutir detidamente todos esses aspectos, gostaríamos de construir o nosso recorte teórico/metodológico tendo como enfoque as novas gerações de leitores que estão inseridas, em sua grande maioria, no contexto social exposto anteriormente.

Em nosso entendimento, algumas questões devem ser colocadas no sentido de problematizar temas que julgamos essenciais para que a leitura crítica do legado de Jorge Amado não seja ofuscada por interpretações pós-modernas reducionistas. Dois fatores primordiais devem, então, ser debatidos. O primeiro, diz respeito, em grande medida, ao desafio de lidar criticamente com as novas tecnologias sem perder de vista a riqueza cultural presente nas obras do escritor baiano. Uma riqueza histórica, cultural e, sobretudo, política, tão essenciais ao esclarecimento e ao despertar de consciências dos seus leitores em relação às desigualdades sociais do passado, do presente e do futuro.

O segundo fator que gostaríamos de destacar no presente ensaio versa sobe a necessidade urgente de criarmos formas de ação, em especial nos campos da política, da cultura e da educação, com o objetivo precípuo de garantir que o legado Amadiano não caia no processo de “coisificação” e de “instrumentalização” que tanto empobrecem a leitura e a interpretação das suas obras.

São dois desafios que devem caminhar juntos se a nossa meta é a de lutar pela formação de leitores críticos que pensam a obra de Jorge Amado em sua plenitude, para muito além de se prepararem para exames de admissão em universidades, por exemplo. Infelizmente, muitos leitores das novas gerações têm sido obrigados a “engolir” clássicos literários com o único objetivo de serem aprovados em exames pré-vestibulares. Trata-se, sem dúvida, de um processo de instrumentalização reducionista e empobrecedor, pois, em grande parte dos casos, o processo crítico de leitura é substituído por uma prática dolorosa que tem como único objetivo a aprovação em um exame de admissão.

Os ensaios presentes no suplemento literário da revisa Princípios deste bimestre deixam claro que a obra de Jorge Amado é composta por uma riqueza política, cultural e simbólica imensuráveis e que podem ser melhor trabalhadas no sentido de preservar, entender e modificar o mundo desigual no qual vivemos.

O ritmo frenético das ditas sociedades pós-modernas, sua flagrante monetarização (“Time is Money”) surgem como forças hegemônicas que estão modificando os nossos comportamentos. Dos nossos íntimos desejos inconscientes ao nosso mecanizado cotidiano, a onda de mercantilização segue sua sanha de transformar tudo o que pode em mercadoria. E a formação da identidade dos novos leitores parece não escapar a esta lógica consumista. Aliás, as suas próprias identidades são entendidas como potenciais mercadorias a serem exploradas, de preferência, o mais rápido possível, “tempo é dinheiro”.

Infelizmente, as novas tecnologias têm servido mais a este fim do que propriamente à formação de uma geração leitora crítica, consciente do seu papel na superação dos preconceitos de classe e da exploração de classes, temas tão candentes nas obras de Jorge Amado. Esta problemática emerge, no nosso entendimento, como um grande desafio a ser enfrentado. Professores, alunos, ativistas culturais, intelectuais e a sociedade civil como um todo devem estar juntos no enfrentamento dessas questões.

Nesse sentido, as novas tecnologias, mais do que instigar uma leitura superficial, fast food, acrítica dos nossos grandes escritores, deve, ao contrário, incentivar o contato com novas linguagens e processos sócio-cognitivos que enriqueçam a leitura, aliando-se a padrões éticos que entendam o livro e o próprio processo de leitura não como meras mercadorias ou como “instrumentos” dirigidos a fins específicos de aprovação, mas, sim, como recursos simbólicos essenciais ao desenvolvimento pleno e humanista dos seus leitores. Afinal de contas, não é esse o principal objetivo de Jorge Amado e da chamada Literatura Engajada?

*Fábio Wolf é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada e Estudos de Linguagem, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

**Texto apresentado por ocasião da homenagem ao centenário de Jorge Amado, em São Paulo, dia 06/12/2012, na Fundação Maurício Grabois.


http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=201001#.UTTF-yqT9ZY

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

‘Quebrar neutralidade significará matar a criatividade da Internet’, diz Sérgio Amadeu



publicado em 10 de janeiro de 2013 às 14:47 na Banda Larga, Internet, Marco Civil da Internet, Notícias
Para Sérgio Amadeu, empresas de telecom ameaçam a liberdade na Internet
“As empresas de telecomunicações que atuam no Brasil, diferentemente de suas matrizes em outros países, não postulam abertamente contra a neutralidade da rede. Elas lutam para quebrar a neutralidade na regulação das exceções”. A observação é do sociólogo Sérgio Amadeu (foto), que acompanhou a elaboração do Marco Civil da Internet. Ele critica as alterações feitas no texto em relação à neutralidade na rede, assim como a medida que permite retirar um conteúdo da internet sem ordem judicial. Na avaliação dele, as alterações – no artigo 15 e no parágrafo 1o do artigo 9º do Marco Civil – sinalizam a influência política das empresas de telecomunicações e copyright no Brasil. “Uma quer controlar os fluxos de informação, e a outra não quer reconhecer que uma prática corriqueira das pessoas na internet é o compartilhamento de arquivos digitais”, assinala em entrevista concedida por telefone àIHU On-Line.
Para ele, as teles querem “transformar a internet em uma grande rede de TV a cabo. Acham que, por controlarem os cabos, por estarem em uma situação estratégica de controle da infraestrutura da sociedade da informação, podem controlar os fluxos”. E dispara: “Quando a operadora tiver poder de filtrar o tráfego e dizer que tipo de conteúdo poderá passar nesses cabos, ou qual será a velocidade de determinado pacote de informação de uma empresa, quer dizer, quando ela puder pedagiar o ciberespaço, irá matar a criatividade da internet”.
Caso o Marco Civil seja aprovado, adverte, as pessoas jamais poderão “se conectar à internet sem ser através de uma operadora de telecom. (…) As operadoras querem poder arquivar os IPs que acessamos, os sites que visitamos, para poder depois, com esse banco de dados, fazer dinheiro, fazer negócio”.
Sérgio Amadeu, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo – USP, participou da implementação dos Telecentros, na América Latina, e da criação do Comitê de Implementação de Software Livre – CISL. Também foi presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação – ITI da Casa Civil da Presidência da República. É professor na Universidade Federal do ABC – UFABC. É autor de, entre outros, Software Livre: a luta pela liberdade do conhecimento; de Exclusão digital: a miséria na era da informação (São Paulo: Perseu Abramo, 2001); e deComunicação Digital e a Construção dos Commons: redes virais, espectro aberto e as novas possibilidades de regulação.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O Projeto de Lei do Marco Civil era considerado avançado, mas o texto foi modificado. Quais as razões de alterar o texto e como avalia as mudanças feitas de última hora no artigo 15, e no parágrafo 1o do artigo 9o que trata da responsabilidade dos provedores em relação aos conteúdos postados?
Sérgio Amadeu da Silveira (foto) – Entre as alterações do texto, duas são muito significativas. A primeira diz respeito à neutralidade da rede. A alteração do texto joga a questão da neutralidade para o governo sem especificar qual órgão do governo fará o controle da internet. Então, obviamente a responsabilidade será da Agência Nacional de Telecomunicações – Anatel, que não tem distanciamento para legislar, fiscalizar ou regularizar a respeito das teles, porque tem tido uma prática de atendimento e de ligação muito grande com os interesses das grandes empresas de telecomunicação. Na ideia de neutralidade, quem controla os cabos não pode ter interferência no fluxo de informações nem por IP (protocolo de internet) de origem nem por IP de destino, e por nenhum tipo de aplicação.
As empresas de telecomunicações que atuam no Brasil, diferentemente de suas matrizes em outros países, não postulam abertamente contra a neutralidade da rede. Elas lutam para quebrar a neutralidade na regulação das exceções, onde o Marco Civil determina que só pode haver uma quebra da neutralidade para garantir a qualidade dos serviços numa situação específica, técnica. Então, quando se joga esse debate para a presidência da República, se tem de escutar vários ministérios e a sociedade civil, o que implica se fazer uma interpretação da questão técnica, correndo-se o risco de deixar a questão sob controle da Anatel, onde se poderia quebrar a neutralidade por interesses comerciais, econômicos, políticos, dizendo se tratar de uma questão técnica.
A segunda grande alteração diz respeito a uma inclusão, no artigo 15, de um mecanismo de retirada de conteúdo sem ordem judicial, quando esse conteúdo for acusado por alguém de violar o direito autoral. O problema todo é que se se permitir que se retire uma foto, um post, um texto da internet, sem uma devida análise técnica de um organismo independente, como é o poder Judiciário, pode-se criar uma censura instantânea. Além disso, pode haver denúncias infundadas e criar uma indústria da denúncia infundada no caso de violação de propriedade intelectual. Imagine, no Maranhão, onde há desafeto político, um provedor que hospeda um post recebendo um pedido de retirada de conteúdo. O provedor não vai querer se confrontar com a lei e irá retirar o conteúdo do ar. Aí se tem a inversão do ônus da prova, ou seja, quem acusa não tem que provar, e aquele que teve o conteúdo retirado do ar terá de recorrer ao Judiciário para publicar novamente o conteúdo. Então, essas duas grandes alterações no Marco Civil são extremamente nefastas.
IHU On-Line – Quais as razões dessas alterações? Por que o Marco Civil contraria os interesses das operadoras de telecomunicações e da indústria do copyright?
Sérgio Amadeu da Silveira – Nós acreditamos que as alterações no texto são fruto de dois grandes lobbies: da indústria de telecomunicações e da indústria de copyright. Uma quer controlar os fluxos de informação, e a outra não quer reconhecer que uma prática corriqueira das pessoas na internet é o compartilhamento de arquivos digitais. A pesquisa do Comitê Gestor da Internet aponta que 52% dos internautas fazem download de músicas, por exemplo. Mas quando se tem uma lei que transforma mais de 30 milhões de pessoas em criminosas, tem que avaliar se a lei deve ser mantida.
Marco Civil, que era uma das leis mais avançadas do mundo, por causa desses dois aspectos fica comprometido. Uma das mudanças irá comprometer a criatividade, dará um poder descomunal às operadoras de telecom; e a outra, coloca a censura na rede.
IHU On-Line – Como a alteração do texto vem sendo discutida pelos defensores da neutralidade e pelos órgãos do governo envolvidos nessa questão? Há um retrocesso na discussão acerca da liberdade na internet?
Sérgio Amadeu da Silveira – As pessoas que defendiam o Marco Civil tiveram um momento de ingenuidade. Achamos que iria prevalecer o bom senso e não fizemos lobby e pressão, como os outros setores, que reuniram deputados e fizeram ações que nós não fizemos. Iremos retomar as discussões esse ano, e os setores democráticos terão de esclarecer que é inaceitável essa situação.
Não é o caso de ter havido um retrocesso, mas esses segmentos são muito poderosos e conseguiram ter os seus interlocutores. Os pesquisadores, ativistas, democratas subestimaram o poder dos lobbys da indústria de telecom e da indústria do copyright.
IHU On-Line – Como foi a Reunião da União Internacional de Telecomunicações em Dubai? As discussões da reunião da União Internacional de Telecomunicações têm algum peso no Marco Civil da Internet?
Sérgio Amadeu da Silveira – Não poderão influenciar, porque houve uma divergência muito grande na reunião e ficou nítido que a China e demais países autoritários querem impor controles políticos e culturais na internet. Isso é inadmissível. Atendendo a interesses de grandes empresas de telecom, em Dubai aprovou-se uma resolução que foi gestada antes da reunião da União Internacional de Telecomunicações, sobre o DPI, um mecanismo utilizado para poder rastrear o fluxo de informações que passa na rede das operadoras de telecom. Essa inspeção profunda de pacotes de dados mostra claramente que as empresas estão se preparando para quebrar a neutralidade da rede, interferir no fluxo de informação, e privilegiar o tráfego de dados para empresas que fizeram acordos. Então, essa falta de consenso em Dubai, a discussão sobre o DPI, que foi levada às delegações, acabaram prejudicando o setor mais conservador e menos democrático.
IHU On-Line – Na prática, como se daria a quebra da neutralidade? Qual a proposta das teles?
Sérgio Amadeu da Silveira – As teles querem fazer com a internet o que acontece com a televisão a cabo. Além de pagar diferenciadamente, querem oferecer pacotes premium, ou seja, para acessar determinadas aplicações, você terá de pagar mais. Hoje as teles já cobram diferenciadamente pela conexão. Quem tem uma conexão de 1 MB paga menos do quem tem conexão de 10 MB. E a quebra de neutralidade não é a respeito disso, é a respeito do acesso. Quer dizer, para as duas pessoas que têm conexão de 1 e 10 MB poderem acessar vídeos, terão de pagar mais, do contrário, não poderão acessar. As teles querem transformar a internet em uma grande rede de TV a cabo. Acham que, por controlarem os cabos, por estarem em uma situação estratégica de controle da infraestrutura da sociedade da informação, podem controlar os fluxos.
As teles perceberam que dez grandes oligopólios do mundo controlam o fluxo da informação digital – e reparem que tudo está se digitalizando efetivamente. Tirando a comunicação face a face, as demais modalidades de comunicação estão se digitalizando, ou seja, vão utilizar a infraestrutura de teles. Aí tem um embate concreto. Tem de se evitar que esse controle da infraestrutura vire um controle sobre a economia, sobre a política, sobre a cultura. Uma das grandes qualidades da internet é o fato de ela ser uma rede aberta; ela não é propriedade de ninguém, ela permite que as pessoas exerçam sua criatividade, sem a necessidade de permissão de governo, de companhias, de corporações, com exceção dos países autoritários.
Reparem: quando a operadora tiver poder de filtrar o tráfego e dizer que tipo de conteúdo poderá passar nesses cabos, ou qual será a velocidade de determinado pacote de informação de uma empresa, quer dizer, quando ela puder pedagiar o ciberespaço, irá matar a criatividade da internet. Usamos vários protocolos na internet; então, imagine se eu estiver criando um protocolo novo e, na hora de passar na rede da operadora, ela impeça porque tem poucos adeptos a esse protocolo. Para aprovar o protocolo, terei de fazer um acordo com ela. Não podemos permitir que um segmento de telecom, que controla os cabos por onde passa a internet, tenha o poder sobre a internet.
IHU On-Line – Mas a proposta de controle das teles pode se efetivar, considerando a popularidade da internet no mundo?
Sérgio Amadeu da Silveira – Sim. As teles podem quebrar essa neutralidade, basta conseguir conjunto de legislações que assegure a elas o poder de filtragem. As pessoas que desconhecem a dinâmica da internet e não foram alertadas aceitarão esse tipo de mudança, e eu temo que precisamos esclarecer as pessoas sobre a liberdade de navegação, interação e liberdade de criação na rede. Se as pessoas forem alertadas disso, será difícil as teles vencerem essa batalha.
Os chamados “inimigos da liberdade” são muito poderosos. Os setores econômicos querem, entre outras coisas, poderem filtrar o nosso tráfego para venderem informações. Outra face dessa discussão é a respeito das operadoras: elas estão mandando ao Congresso Nacional suas reivindicações dizendo o seguinte: “O Google tem muitas informações sobre as pessoas, vendem essas informações e ganham muito dinheiro com isso. Nós, operadoras, também queremos poder guardar informações sobre a navegação dos internautas”. Hoje isso é proibido. Nós revidamos a esse discurso dizendo que ninguém é obrigado a acessar o Google. Entenda bem, eu provo para qualquer pessoa que lê essa entrevista que ela pode navegar um dia todo sem acessar nenhum site ou serviço do grupo Google. Agora, caso o Marco Civil seja aprovado, ela jamais poderá se conectar à internet sem ser através de uma operadora de telecom. São situações muito diferentes. Imagine você: as operadoras querem poder arquivar os IPs que acessamos, os sites que visitamos, para poder, depois, com esse banco de dados fazer dinheiro, fazer negócio. O Marco Civil proíbe isso também em outro artigo.

IHU On-Line – A tentativa de quebrar a neutralidade da rede tem sido uma tendência mundial?

Sérgio Amadeu da Silveira – Tem uma tendência mundial de filtragem de tráfego, de pedágio desse tráfego de dados na internet. Por outro lado, isso tem gerado uma reação mundial em defesa da neutralidade. Nos Estados Unidos há um movimento poderoso que se chama Save the Internet. são milhares de pessoas que lutam pela aprovação de uma lei que garanta a neutralidade da rede, que denuncia a filtragem de tráfego, o bloqueio de pacotes. Por exemplo, a Holanda aprovou uma lei nacional específica em defesa da neutralidade. O parlamento europeu também aprovou uma resolução defendendo a neutralidade da rede. Quem controla a infraestrutura tem que ser neutro em relação ao fluxo de informação que passa por ela. Estamos vivendo um despertar da sociedade civil mundial em defesa da neutralidade da rede, e não o contrário.
Fonte: Portal do Instituto Humanitas Unisinos